quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Bici.a3

*Entre 01 julho e 01 de novembro, passei 4 meses em bicicleta.*

Viajar não é passar por lugares e marcar "fiz o Brasil".

Deve-se entregar seu corpo ao desconhecido, confiar na vida com certa cautela, deixar o lugar guiar seu comportamento. Se conseguir compreender como vivem as pessoas dali, talvez se sinta mais confortável em não tomar banho por alguns dias porque não chove há 10 meses, ou fazer cocô em banheiro turco (aquele que é um furo no chão) mesmo se for pega por um piriri.Eu, acostumada a enfiar uma bicicleta num engarrafamento de cidade de 3 milhões de habitantes, onde a prioridade absoluta é motorizada, já tenho sangue frio pra algumas coisas que nem todos topam, pois já brinco de viver com meu corpo em jogo.

Opulência, conforto, chegar numa cidade onde não existe chuveiro, pelo simples fato de ser impossível pensar em deixar esse item tão raro correr livremente, é imaginar como essas pessoas se limpam, no frio, sem rio ou encanamento.Uma criança de 2 anos se senta ao lado de um morador de rua e avança no seu marmitex frio, ela ainda não tem os véus dos preconceitos que a sociedade sussura no seu ouvido sem que você perceba. Ela enxerga ainda muito bem, sem embaçar, que pessoas são pessoas, basta ter uma forma parecida 
com a dela para se identificarem como iguais.

Viajar com a liberdade de criança é se importar apenas com a possibilidade de diversão, de alimentação e de descanso, independentemente da forma que isso terá. Porém colocar uma criança para viajar é para muitos inconcebível, elas precisam do conforto do lar, de objetos conhecidos - digo que quem precisa disso são os pais, que já estão cansados e não estão dispostos a se arriscar.

Quem não se satisfaz é o adulto, que procura cumprir seus objetivos e quer a cada momento algo melhor, mais bonito ou confortável. As crianças vivem no presente, gostam das pessoas que lhe dão amor, independente de vínculos familiares, elas gostam sim de guardar suas referências, mas elas podem ser móveis: um livro, uma pessoa conhecida por perto, um brinquedo...e claro, sempre uma comida pois a fome é um grande vilão.Viajar de bicicleta é carregar um micro cosmo enquanto circula, é ter tempo de refletir seus desejos e fazer as pazes com passados indesejáveis. É aprender a ter autônomia durante alguns dias, é conhecer melhor a natureza com suas tempestades de frio ou bafos de calor.

Barulhos, cheiros e paladares diferentes de um apartamento, de um cano de descarga, de um self-service sem janela, de um pin de elevador. Uma viagem serve para sair do seu comum e voltar pra outro comum, diferente do habitual. Conhecer a chuva, o vento proibidos na cidade, abrir a guarda e ainda assim se proteger. E ter a mão um gostinho de casa, mesmo que seja em forma de chocolate.

(Detalhes no instagram bici.a3 e http://bicia3.travelmap.fr/)