terça-feira, 16 de março de 2010

A Mauritânia

Longa história sem acentos corretos graças ao pobre do teclado francês e repleta de delírios pessoais.
Se não der prazer de ler, jà deu prazer de escrever.

A fronteira com a Mauritânia sempre exerceu uma atração em mim. Talvez pelo fato de que as do Brasil são quase inatingíveis quando se é um mero mineiro, ou pelo simples prazer de colecionar um outro pais de uma maneira bem fácil. Numa manhã fugi de casa bem cedo, já que minha co-moradora, a dita Estefânia cover, não se interessava pela travessia do deserto, e fui sozinha em busca daquela linha que a gente encontra nos mapas. Pra chegar foi preciso diferentes meios de transportes (viva os modais!). No começo um táxi (que funciona como transporte público e normalmente bem barato para nós) como o taxista queria cobrar caro e eu não aceitei, ele me largou no meio do caminho. Ainda melhor, com o "car rapide", ou Alhamdoulillahi para os íntimos - o minibus africano de lindas colores, em vez de pagar 1000 dinheiros paguei somente 100! Depois uma charrete, na qual paguei mais 100 dinheiros pra compartilhar com 3 senhoras que vinham do mercado com suas latas na cabeça e uma menininha com sua latinha (as "latas de cabeça" são proporcionais ao gênero e idade). No ponto final da charrete fiquei, ou seja, na parte 2/3 desse bairro Gokhumbacc que tem 3 partes.

Atravessar a parte 3 a pé tem suas dores e delicias. Dores de ouvido de tanto ouvir toubab,toubab, toubab... dor na mão de apertar todas as pequeninas mãozinhas que estenderam pra mim... dor no coração de tanto plástico no chão... Delícias de voltar às reflexões da sociologia em "quando a rua vira casa" (os arquitetos vão me entender mehor) o livro indicado pela professora loira. Aqui não tem casa nem rua, como no ambiente da favela, e é preciso justificar... onde você vai estrangeiro? E nem adianta fingir que sou da turma, pois não me pintei de carvão ao sair de casa. E realmente se invade, pois privacidade e propriedade aqui são fluidas e de uma lógica ainda de difícil apreensão.

É na rua de areia que se erguem os invisíveis "puxados": é ali a cozinha com suas mulheres, legumes e peixes, onde está o fogão tipo acampamento em forma de botijão de gás com trempe ou pequena churrasqueira, onde se lava a roupa no balde fazendo 90 graus com o corpo e onde se extendem as roupas nas fachadas das casas ou perpendicular, atravessando a rua. Sim, no meio da rua, algum problema? O comércio também é feito pelas mulheres que se instalam ao lado da padaria com seu banquinho e mesa baixa e vendem recheios apimentados para baguetes, peixe frito, bolinhos e pastéis. As crianças prolifeream por todos os lados, brincam, correm, gritam, pertencem à todas as mulheres, como na sociedade de muriquis (vide google).

Os homens não estão ali; pescam no mar por dias em suas "pirogas", dirigem os milhões de táxis que circulam, fazem o grande comércio, costuram os vestidos das mulheres nos mercados...e tocam seus tambores djembés às 3h da madrugada... e procuram mais uma de suas 4 possíveis mulheres.

Deixando de ser prolixa e voltando ao destino mouro, no fim do bairro acaba a cidade e prevalece a areia. Mesmo o cemitério é uma duna com diversas placas em madeira de "aqui jaz". Areia e água, é isso que se tem por todos os lados, gastando o dicionário, verão que estou num istmo: uma faixa estreita de terra, neste caso areia, aqui entre o rio e o oceano. E ninguém, ninguém, ninguém mais... Até que passa correndo um tipo maratonista - não, ele não veio da corrida de Buenos Aires nem do Quênia - não perguntei para evitar as perguntas básicas e o pedido de casamento, mas deve ser parte do treino da famosa luta daqui, na qual dois homens se agarram e tentam colocar o outro no chão - não, não é um momento gay, senão eles iriam pra prisão já que homossexualismo é proibido por lei. E que bom que ainda não atravessamos a fronteira da Mauritânia, pois là a infração é suceptivel a pena de morte! (Que felizmente não se aplica).
O segundo indivíduo foi o catador de sei là no mangue com seu barquinho. O terceiro foi um carro rumo ao norte, do outro lado da faixa de areia.

Sentada na praia bebendo àgua no saquinho pensei que nesse vento de Jeri seria perfeito para um kitesurf.

Dizem que é ali a fronteira, nesse ponto do istmo chamado "língua dos bàrbaros", onde estão as únicas árvores. De fato a linha não está lá e niguém pediu meu passaporte, mas deu um bom sentimento de travessia.

5 comentários:

  1. cuidado com os pedidos de casamento, heim!?

    a moeda tb é o camelo??
    quantos camelos vc tá valendo??

    moça moça moça, adorando seu blog!!

    bjao!

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  2. Voltou pra frança?
    Traz um bordeaux?

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  3. Lindo seu texto, quase me senti atravessando a fronteira...
    Depois me explica essa história de pedidos de casamento!
    Beijo, Dri :)

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  4. Ei Cláudinha,
    Tudo muito insólito! Muito fantástico!
    Saudades!
    Beijo,
    Adriana Paiva

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  5. que incrível!
    queria eu atravessar esse deserto com você. :)
    besos chica!
    e veja muito!

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